O ‘office-boy’ que queria ser bancário

maq datilo

Gosto de ler as crônicas de Mattew Shirts na Veja São Paulo. Aprecio seus textos desde quando escrevia no Estadão. Na edição de 10 de julho de 2013, Shirts relata seu fascínio por cartórios. “Você pode me achar louco, não seria o primeiro, mas confesso sentir um pequeno prazer em frequentar esse local”, escreveu.

Ao ler o cronista, me lembrei imediatamente do tempo em que fui office-boy e tinha de andar pelos bancos e alguns cartórios do centro da cidade de São Paulo. Ia sempre ao Banco do Brasil, na Rua São Bento com a Avenida São João, em frente ao Edifício Martinelli. Ali ficava a Carteira do Comércio Exterior (Cacex). Meu trabalho, toda sexta-feira, era conseguir a expedição de uma guia de exportação.

Os funcionários trabalhavam bem-vestidos, engravatados. Eram “ricos”, “ganhavam vem”, pensava do lado de cá do balcão. Quando se punham a usar a calculadora (uma manual, que tinha uma alavanca para mudar de linha), era fascinante. Eles não olhavam para o teclado e faziam conta sem errar. Sabiam exatamente a posição dos números na maquininha. E datilografar, então? Era uma loucura. Qualquer que fosse a marca das máquinas de datilografia —Facit, Remington, Olivetti — eles escreviam sem olhar o teclado. Se era copiar, os olhos ficavam o tempo todo no original. Quando terminava a linha, ouvia-se um “plim” e, acionando-se uma alavanca do lado da máquina, começava-se um novo texto.

No escritório da empresa em que eu trabalhava (Granimar), também tinha gente que escrevia sem olhar o teclado. Dizia-se que era assim que um bom escriturário tinha de ser. Só o Wanderley datilografava com dois dedos…

Com meu quinze, dezesseis anos, chegava à conclusão de que nunca seria um bancário se não soubesse datilografar daquele jeito. Assim, nas horas vagas, no escritório, tentava fazer um exercício que as escolas de datilografia ensinavam: com dedos correspondentes, teclava com a mão esquerda asdfg e çlkjh com a mão direita, e assim por diante.

Quando vou aos bancos hoje, já não sinto a mesma emoção de quando ia à Cacex, Caixa Econômica Federal ou outro banco. E fico até assustado quando penso que um dia desejei ser bancário.

Amorim Leite

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