Um pequeno milagre

Há dias vinha elaborando mentalmente um novo texto para postar aqui. Quando me sentei diante do computador para escrevê-lo, percebi que o livro ao qual eu faria referência sumiu de minha biblioteca. Ao procurá-lo, achei outro, muito interessante, que ganhei de presente há alguns anos.

Pequenos milagresCoincidências extraordinárias do dia a dia, de Yitta Halberstam e Judith Leventhal, é o nome do livro. Editado por GMT Editores (Sextante), a obra é o testemunho de várias pessoas que souberam ver em situações aparentemente casuais um pequeno milagre. Aqui vai um dos textos publicados ali.

“Como grande industrial do vestuário no Canadá, vendi algumas mercadorias a uma pequena empresa varejista de Montreal, de propriedade de um membro de minha sinagoga. Eu havia sido informado de que ele era um homem direito e respeitável que mantinha um negócio honesto e, por isso, dei-lhe crédito. De acordo com os termos combinados inicialmente, ele deveria, sessenta dias após o recebimento da mercadoria, me pagar sua conta de US$ 8.724. Fiquei muito desanimado quando o contador me disse que ele estava atra-sado no pagamento.

Mandamos três avisos, que ele ignorou. Afinal, peguei o telefone e liguei para ele.

— O que está acontecendo? – perguntei.

— Olhe – disse ele, com um suspiro. — Sinto muito, mas não tenho como pagar minha dívida. Os negócios estão péssimos e eu talvez precise fechar. Não me resta um centavo.

Eu não sabia o que fazer e fui consultar meu rabino.

— Será que eu deveria recorrer à justiça? Afinal de contas, US$ 9.724 não é uma quantia irrisória. Realmente preciso desse dinheiro! Por outro lado, sinto pena dele. Está passando por uma maré baixa. O que é que ele realmente pode fazer? – O rabino não me deu nenhum conselho muito concreto.

— Siga o que seu coração mandar! – recomendou.

Lutei comigo mesmo por muito tempo e finalmente concluí que não tinha coragem de processar o homem. Mais tarde, soube que ele havia fechado a loja. Mudou-se para outro setor da cidade, entrou para outra sinagoga e eu perdi contato com ele.  Alguns anos se passaram e minha empresa prosperou.

Um dia, recebi um telefonema de uma mulher, cujo nome não reconheci, que me perguntou se poderia vir ao meu escritório para me ver. Ao chegar, ela revelou sua identidade: era a filha do homem que ainda me devia R$ 8.724.

— Todos esses anos, meu pai sentiu uma culpa tremenda em virtude do dinheiro que lhe deve – disse ela. — Ele faliu e nunca pôde voltar a uma situação favorável. Ainda não tem dinheiro. – ela então tirou da bolsa uma joia, que me entregou.

Era uma pulseira de ouro cravejada de diamantes.

— É uma herança de família – disse-me ela. — Praticamente o único objeto de valor que resta a meu pai. Ele me pediu que lhe desse esta pulseira com um sincero pedido de desculpas e uma enorme esperança de que tenha algum valor. Ele não conhece o valor da joia, mas espera que ela lhe renda pelo menos parte do que lhe deve. – Àquela altura, eu não queria aceitar, mas ela insistiu.

Não conheço muito sobre joias, mas duvidei que a peça tivesse de fato algum valor. Joguei-a numa gaveta e me esqueci. Alguns dias depois, lembrei-me dela e a mostrei a meu pai, que também demonstrou total ceticismo quanto às suas possibilidades. Sugeriu, porém, que eu procurasse um especialista conhecido seu para obter uma avaliação.

O avaliador examinou a pulseira cuidadosamente e com vagar. Finalmente, depois de muito tempo, voltou-se para nós, animado:

— Esta joia é realmente valiosa! Muito mais do que vocês imaginaram. Para dizer a verdade, eu gostaria de comprá-la. Disponho-me a pagar US$ 8.724.

A quantia exata que o homem me devia!

                                                                     Patrick Simone

Comentário

No nosso mundo cão, alguém que age com generosidade pode acabar sentindo que foi feito de bobo. Por agir de modo correto, o empresário conquistou nitidamente os aplausos de uma força superior.”

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2 respostas para Um pequeno milagre

  1. Alaide disse:

    Quantas vezes pessoas como nós que somos corretos nos sentimos assim…
    Amorim a muito tempo não nos encontramos em eventos, talvez nem lembre da minha pessoa. Mas saiba que tenho uma admiração muito grande pela pessoa culta e profissiona que é. Um grande Abraço. alaide sisilio

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